Desde setembro de 2024 eu uso IA para programar todos os dias. Foram 18 meses direto no Cursor e, na última semana, migrei para o Claude Code. Nesse tempo todo, aprendi o que funciona de verdade, onde a IA ainda tropeça e, principalmente, o que mudou na minha cabeça como desenvolvedor.
Esse artigo é um relato honesto. Sem hype, sem vender ilusão.
Do Cursor ao Claude Code
O Github Co-pilot foi minha porta de entrada para programar com IA, fiquei impressionado em como clicar Tab já criava um código que fazia sentido para aquele contexto de arquivo, mal imaginava que essa era apenas a ponta do iceberg.
Algum tempo depois, cerca de um mês, eu estava conversando com um colega da empresa, ele me falou sobre um projeto que fez dentro da Mashgin, um simulador do nosso kiosk completamente dockerizado, eu ficando perplexo com a complexidade perguntei mais sobre, então ele me falou sobre o Cursor e como era um VS Code altamente melhorado com IA de verdade integrada no editor.
Não teve outra, eu como um heavy user de VS Code fiquei completamente animado. A nossa conversa foi no fim de Agosto de 2024, logo depois comecei o free tier de 15 dias, em Setembro já estava com o plano anual pago. Nos próximos 18 meses ele foi minha ferramenta principal e me ajudou muito, eu utilizei todos os dias e recomendo que você o tente, acontece que o time do Cursor mudou algumas coisas que me deixaram descontente, e quando envolve dinheiro e ferramentas eu sou bem desapegado. Comecei a testar outras ferramentas, incluindo o Claude Code, e aí algumas coisas mudaram.
Vibe coding no terminal... surreal
É um fato que o Claude Code está em todos os lugares, acho que até ganhou do Cursor em popularidade e em número de pessoas falando dele. Eu estava bem relutante em assinar, utilizei a integração no Zed com $5 em API primeiro, depois fui aumentando e hoje já estou no plano Max.
A primeira coisa que me chamou atenção foi poder rodar múltiplas tarefas em paralelo, cada uma em sua própria aba do terminal, todas visíveis para mim ao mesmo tempo. No Cursor eu não tinha essa visibilidade (ou pelo menos nunca consegui configurar dessa forma). Com a integração do Claude Code no Zed, isso criou uma camada nova de produtividade. Eu já gostava do Zed pela velocidade absurda dele, agora com o Claude Code junto, virou meu setup principal.
Depois que o time do Cursor lançou o Composer 1.5 (o novo modelo padrão deles), que para mim é muito ruim comparado com o Sonnet 4.5, ficou claro que o Claude Code é a melhor opção no momento. Mas nem tudo é perfeito.
Onde o Claude Code ainda precisa melhorar
O Cursor utiliza o VS Code e seu time tem uma boa preocupação com a UX. Tem coisas lá que são mais simples e diretas, por exemplo: eu seleciono um bloco de texto, aperto CMD + L e ele já abre um chat com esse bloco marcado. Honestamente, isso ganha tempo. No Claude Code, em todas as integrações que testei até agora, eu preciso copiar o bloco e colar.
O @ para gerar contexto dentro do Claude Code terminal também precisa melhorar muito ainda, está bem imaturo comparado ao Cursor e até mesmo à integração do Zed.
Esses detalhes de UX incomodam, mas não mudam o resultado final. O que importa é a qualidade do que a IA entrega, e nisso o Claude Code ganha.
Falando sobre as features que explorei na minha última semana.
Remote control: programar de qualquer lugar
Uma das que mais me surpreendeu foi o remote control pelo iOS. Eu fui tomar um café com minha esposa, e comentando com ela toda a minha animação sobre estar testando o Claude Code eu disse: "olha só! criei um túnel para meu localhost e agora consigo mandar prompts de qualquer lugar pelo app do Claude no celular e ele vai ficar atualizando direto na minha máquina e posso ver o resultado."
Ela fez uma cara de "interessante, não entendi muito, mas você está animado, então ótimo, vamos nessa".
No meu dia a dia, isso é melhor do que "background jobs" tradicionais porque por alguma razão eu precisei sair da minha estação de trabalho, e eu não preciso escrever um prompt sendo que eu já estava imerso ali, esperar a IA abrir a PR, seguir todo aquele processo formal e pior de tudo, nem ter o feedback para eu ver como o site está indo.
O fluxo é simples: escrevo → executa na minha máquina → reviso → repito até estar pronto. Parece pouca coisa, mas na prática muda completamente como eu uso o tempo, e como levam alguns minutos para executar eu consigo travar inúmeras conversas com minha esposa enquanto tomamos nosso rotineiro café.
Ou então, estou no sofá assistindo algo? Mando um prompt. Estou esperando em algum lugar? Mando um prompt. A barreira entre "estou trabalhando" e "não estou" ficou muito menor, o único cuidado é para não viciar, mas isso é assunto para um outro post.
Este site foi feito 90% com IA
No meu trabalho das 9 as 17 eu tenho um senso de critério extremamente elevado, não fico vibe codando sem entender o que está acontecendo. Mesmo que a IA escreva algo que eu não entenda eu persisto em explicações até eu entender, afinal de contas, dentro da Mashgin é minha responsabilidade garantir que o código funciona corretamente e não da IA.
Só que aqui eu decidi me entregar mais aos prompts e menos a intervenção humana. Este site que você está lendo agora foi construído quase inteiramente com IA. Eu diria que 90% do código foi gerado por IA, especificamente pelo Claude Opus divido entre Medium e Hard thinking. Os outros 10% foram coisas que ele realmente não soube resolver e eu precisei codar na mão, ou ajustes que não valeriam a pena gastar um prompt e entregar todo o contexto novamente para resolver - ter uma IA fazendo as coisas para você não é sinônimo de que você pode ser preguiçoso.
Para dar um exemplo concreto dos 10%: coisas como ajustes finos de layout, animações que precisavam de um olho humano para ficarem naturais, ou lógicas de negócio muito específicas que a IA simplesmente não tinha contexto suficiente para acertar de primeira. São coisas pequenas, mas que fazem diferença no resultado final e que só quem entende o projeto consegue resolver.
O ponto mais importante aqui é sobre tempo. O que antes levaria dias de escrita e implementação, hoje sai em horas.
MCP Tools: o fluxo de trabalho do presente
Algo que ficou enraizado na nossa cabeça é que IA é apenas uma ferramenta para conversar, e de vez em quando criar imagens. Eu preciso que você deixe de acreditar nisso nesse exato momento.
IA não é apenas algo que responde suas perguntas. Hoje, em 2026 (e até antes na verdade) é algo que executa ações por você. E as ferramentas de MCP (Model Context Protocol) abrem um horizonte completamente novo.
Eu tenho testado no último mês esse fluxo de trabalho no dia a dia da Mashgin:
Linear → Zed → Claude Code → GitLab
Eu conectei o Linear via MCP, e criei um MCP mais inteligente para o GitLab utilizando a CLI do glab. Do começo ao fim, a IA entende minha tarefa, implementa e abre a pull request. Quando meus colegas deixam comentários no code review, eu peço para a IA ver e arrumar. Tudo pelo Zed ou pelo terminal do Claude Code.
Como disse antes, é a MINHA responsabilidade garantir que o código funciona corretamente, então claro que existem casos em que preciso fazer intervenção manual e que eu vou ler e entender 100% do que está acontecendo, mas no geral tem sido assim.
E quer saber o melhor? O pessoal na empresa apoia e quer mais disso. Não é algo que eu faço escondido, com medo de perder meu emprego, mas é uma mudança que o time inteiro está abraçando e que vai garantir ele.
A questão não é se a IA vai substituir devs. É se o dev que usa IA vai substituir o que não usa.
Nem tudo são flores
Quero ser honesto sobre os limites porque tem muito conteúdo por aí que só mostra o lado bonito e irreal.
O código não fica 100% como eu faria. Mesmo eu explicando detalhadamente como quero, com contexto, com exemplos e até com Skills e um CLAUDE.md muito bem definido. A IA tem um jeito próprio de resolver as coisas e nem sempre é o jeito que eu escolheria, talvez tenha algo dentro dela que tente fazer um equilíbrio de gastos x esforço, não sei.
A Inteligência Artificial na realidade não é tão inteligente assim. Regras de negócio do zero, fluxos de UX voltados para seu público, melhores ferramentas para utilização. Tudo isso é algo que a IA não vai decidir. Ela vai pela probabilidade do que as pessoas estão mais usando e do que está dentro do seu modelo. Não é algo inteligente, é um grande "Maria vai com as outras".
A verdade dura é que a IA não consegue tocar um negócio inteiro ou um projeto grande sozinha. Esquece. Se alguém fala isso e você fica assustado porque acha que vai perder emprego ou que estará morando debaixo da ponte em alguns meses, é porque claramente você não entendeu nada.
A pessoa por trás da tela (ou do app mobile hehe) precisa saber o que está fazendo, precisa entender as regras, as ferramentas e então dizer como fazer o melhor uso delas.
A IA é um reflexo do profissional que está digitando os prompts. Se você não entende o que está pedindo, o resultado vai ser proporcional.
Em algum momento você vai precisar interferir manualmente. Vai precisar ler o código gerado, entender o que foi feito e corrigir. Se você não tem essa capacidade, a IA vira uma caixa preta perigosa.
E sim, você vai precisar aprender a programar.
A lição mais difícil para mim: desapegar do código perfeito
Essa foi a maior lição desses 18 meses e confesso que ainda estou trabalhando nela.
Preciso me desapegar do código perfeito. Não ao ponto de aceitar qualquer coisa, mas o suficiente para fugir do over-engineering. E olha, over-engineering me persegue desde meus primórdios na programação. Aquela vontade de abstrair tudo, de criar a arquitetura perfeita, de cobrir cada edge case.
Com IA, isso muda. O código não é mais o ativo mais valioso. É difícil e duro de aceitar, porque foram (e são) horas e mais horas de estudo. Horas que vão continuar, porque o conhecimento técnico continua sendo essencial. Mas a relação com o código mudou.
Meus problemas foram resolvidos?
Sendo bem direto, uma boa parte sim, só que outros foram gerados. O jogo mudou. E quem quer entrar nele da maneira certa precisa entender a combinação que as empresas vão pedir de um dev:
- IA: saber usar as ferramentas, entender os limites, integrar no fluxo de trabalho
- Visão de produto: entender o que está sendo construído e por quê, não apenas como
- Código sólido: dominar o suficiente para intervir quando a IA errar
Não é sobre substituir o desenvolvedor. É sobre o desenvolvedor que sabe usar IA entregar em um nível que antes não era possível.
Esses 18 meses me mostraram que a IA é a ferramenta mais poderosa que já tive nas mãos e eu vou me aprofundar cada vez mais nela, entretanto continua sendo uma ferramenta, e como tal, o resultado depende de quem está usando.